A nudez é um território colonizado pelo machismo. As revistas, os programas, as “produções culturais” e os ambientes de nudez feminina liberada são construídos com substrato sexista como forma de preservar e reproduzir o poder masculino. Quando a nudez é masculina, o “produto cultural” é voltado para o público gay, homens para homens verem.
Às mulheres, sobra o território do corpo coberto. Uma indústria inteira mobilizada para “educar” a mulher sobre seu papel, sua “função”, seu “espaço” na sociedade. Como, quando, o que, por que usar tais roupas? O que mostrar e o que esconder do seu corpo? E sobretudo, que corpo você deve ter se quiser exibi-lo, vestida na esfera pública, e nua na esfera privada?

No centro, o corpo que as mulheres desejam; à esquerda, o corpo que os homens desejam; à direita, o corpo que a maioria das mulheres tem.
Uma pesquisa feita em 2008 pela revista britânica de moda Fabulous (infelizmente, a página da pesquisa não está mais no ar) revelou, involuntariamente, que o machismo está por trás da idealização da imagem corporal. As mulheres desejam aquele corpo em que a moda sempre cai bem, mas cujo ideal só é alcançado com uma boa ajuda da genética. Os homens, desejam mulheres magras, mas “nem tanto”. E a maioria da população feminina não se encaixa em nenhum dos dois ideais, exibindo medidas bem acima do ideal. Bem, exibindo não é a palavra correta, a palavra correta é escondendo.
Aparentemente, a pesquisa diz: mulheres, vocês não precisam ser tão magras quanto imaginam para serem aceitas. Mas subliminarmente, a pesquisa apenas reforça que o corpo feminino é apenas um objeto de satisfação masculina. Seja como for, a “mulher que quer ser desejada pelo homem” tem que se encaixar na medida certa. A mulher que quer ser aceita e amada tem que ser o que não é (mais magra, menor) ou o que não quer ser (mais curvilínea e rechonchuda, maior). Se você não se encaixa na medida “correta”, sua nudez será castigada com um simples rótulo: “inadequada”.

Alia: a nudez laica e libertadora é acusada de imoral pelo Egito e etiquetada como "desfrutável" pelo Ocidente.
Em novembro de 2011, a blogueira egípcia Alia Al Mahdi exibiu sua nudez na internet. Feminista, laica e individualista, como se define, ela fez isso em nome de sua liberdade. No Egito, a nudez é um território colonizado não apenas pelo sexismo, mas por uma visão da mulher como inferior ao homem embasada nas tradições religiosas. O apelo de Alia por liberdade foi condenado tanto pelos conservadores políticos quanto pelos liberais por ferir a fé muçulmana.
Fora do Egito, Alia recebeu apoio de várias organizações feministas e, mais ainda, de homens machistas cuja grande “contribuição” para uma sociedade mais justa foi oferecer à jovem acusada de imoralidade um espaço em suas camas. Porque o corpo feminino pode ser imoral no Egito. Mas no resto do mundo é principalmente objeto de dominação.


Imagens de um protesto do Femen contra o primeiro-ministro russo Vladimir Putin e o ministro ucraniano em Kiev, novembro de 2010.
Há pouco mais de um ano, o grupo ativista Femen ganhou espaço na mídia. As “feministas ucranianas”, como são chamadas, saem às ruas exibindo seus corpos nus. Exibem corpos perfeitos em seus protestos contra exploração econômica, a anorexia, a liberdade das mulheres, a pornografia. Elas gritam, elas são polêmicas, elas protestam contra todas as formas de violência. São inadequadas. Mas estão nuas.
O que pouca gente percebe é que, nas fotos dos protestos do Femen, as ativistas aparecem, em geral, sendo controladas, coagidas, ameaçadas ou presas por policiais. E sendo clicadas fotógrafos da grande mídia sedentos por ângulos avassaladores de corpos femininos. Mas as ativistas do Femen são inteligentes: elas despem muito mais do que seus corpos.
Cada foto que mostra um protesto do Femen revela que o corpo nu não é uma novidade – isso está em qualquer banca de jornal ou site. A novidade é que o exercício da violência desmedida e da repressão ganha espaço de destaque. Ao exibir seus corpos, as ativistas obrigam o próprio oportunismo midiático a denunciar a si mesmo e ao conservadorismo dominador a favor do qual, teoricamente, opera.
A nudez feminina das revistas masculinas e filmes pornográficos, das musas do Carnaval e dos times de futebol, nunca será castigada. É a nudez a serviço de seu senhor.
A nudez das ativistas do Femen, de Alia, ou de qualquer mulher que se declare independente do desejo masculino e fuja dos padrões de beleza será castigada pela violência ou pela ridicularização. A nudez exercida em nome da liberdade individual, dos direitos das mulheres, da libertação de imposições mutiladoras opera contra a colonização dos corpos, contra os monopólios do poder e da autoridade, contra a violência ideológica e física. E é por isso que essa nudez será castigada.