Plenos Poderes

Um blog d'O Pensador Selvagem

July 23, 2012
by Regina Miraaz
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O feminismo ganhou um jornal. No Chile.

Já faz tempo que as feministas de todo o mundo denunciam o controle dos empregos e dos meios de comunicação, bem como do setor editorial (sobre o qual escrevi aqui) por homens. Pois um grupo de sete jornalistas e fotógrafas do Chile resolveu partir para a cão e começar a mudar isso. Elas criaram o primeiro jornal online integrado unicamente por mulheres.

O jornal foi lançado em 5 de julho e pretende ser, como o próprio site diz, “a voz política das histéricas, santas, bruxas, loucas, putas e de todas as mulheres”.

“Queremos fazer parte do debate nacional. Não é que seja um jornal para mulheres, mas é um diário feito por mulheres, sendo que todas as nossas fontes também são mulheres”, relatou hoje à Agência Efe Kena Lorenzini, diretora do Lamansaguman.

O título escolhido para o jornal é uma referência à expressão chilena “mansa” (tremenda) e à palavra “woman” (mulher em inglês). As profissionais envolvidas no projeto vão enfrentar jornada tripla, pois todas mantêm outros trabalhos e farão o jornal nas horas vagas.

Então, vá até lá: http://lamansaguman.cl/

May 13, 2012
by Regina Miraaz
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Femen e o conservadorismo que não quer calar

Neste dia das mães, o UOL traduziu uma interessante reportagem da revista alemã Der Spiegel sobre o Femen, o grupo ativista e feminista ucraniano que dá o que falar com seus protestos em que mulheres aparecem nuas.

O texto é interessante porque mostra como as ativistas do grupo agem, discutem seus protestos, a linguagem e as estratégias, e vale ser lido na íntegra aqui. Mas o próprio título já indica o que leremos ao final (se você não gosta de spoilers, pule este parágrafo): o conservadorismo da publicação ao lidar com o tema. “Femen: seus atos podem mudar o mundo ou apenas alimentam uma mídia obcecada por sexo?” é a pergunta inicial para, ao fim, a repórter afirmar que os policiais não querem prender as feministas, apenas querem olhá-las. Porque os olhares apenas “curiosos” dos policiais seriam a mensagem de que nada mudará, até porque, afinal, não há violência, não há repressão à ação do Femen. E isso é uma resposta implícita da própria publicação à pergunta do título. Der Spiegel – e UOL, ao reproduzir a matéria sem nenhum questionamento – acreditam ou pior, querem fazer crer, que nada mudará.

É mentira que os policiais apenas olham: nas fotos e vídeos publicados no site do Femen é possível ver que as ações incomodam, sim, o poder policial e as autoridades estatais muitas vezes.

A pergunta que coloco, então, é: quem está alimentando uma mídia obcecada por sexo, o Femen ou a própria Der Spiegel e o UOL com essa pergunta?

“As mulheres do Femen estão pegando o bumerangue no ar e o atirando de volta”, disse a feminista Alice Schwarzer à Der Spiegel. Esta é questão primordial e mais, como falei no post de estreia deste blog, a cada repressão que sofre o Femen mostra que há muitas forças no mundo que se opõem a qualquer mudança, e que a dominação masculina luta violentamente para manter seu poder.

Trazer um tema desses no Dia das Mães, este dia de comemoração do aprisionamento das mulheres à condição de parideiras, é uma escolha interessante do UOL. Será mesmo que o Femen não está mudando o mundo?

March 10, 2012
by Regina Miraaz
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Não devemos nada ao feminismo – mas um agradecimento seria prova de inteligência

Claro que no Dia Internacional da Mulher todas as pessoas vivenciaram experiências absurdas. Houve quem dissesse que era o dia em que as mulheres deveriam se calar para ouvir os agradecimentos e elogios dos homens. Houve quem oferecesse flores. E houve quem, identificando-se como “mulher”, “intelectual” e “filósofa”, dissesse – em um texto publicado no jornal Folha de S.Paulo – não dever nada ao feminismo.

Não vou resumir as afirmações do texto, porque o que está escrito nele pode ser ouvido em qualquer lugar e também porque o texto pode ser encontrado na internet. Apenas considero importante lembrar que qualquer crítica exige conhecimento. Então, achei que talvez fosse bom apenas mencionar aqui dois pontos sobre o feminismo que o tal texto “se esquece” de considerar. Um é relativo uma conquista que parece “natural” aos olhos de todos, mas que foi resultado da mobilização das mulheres. O outro é um desafio em torno do qual o feminismo está mobilizado.

Uma conquista: a educação formal das mulheres

Nos séculos 17, 18 e mesmo 19, muitas meninas, mesmo de classes mais abastadas, não aprendiam a ler e a escrever. Porque elas não “precisavam” ser alfabetizadas, já que suas vidas seriam dirigidas pelos pais e, depois, pelos maridos e que elas não ocupariam nenhum espaço na esfera pública. Alfabetizar uma menina era até considerado “perigoso”, pois ela poderia, assim, se comunicar com pessoas que não fossem de seu círculo familiar, poderia ler documentos e literatura “inadequada”… Enfim, poderia ter acesso a conhecimento e reflexão, combinação bombástica que pode produzir um intelectual.

Embora o feminismo propriamente dito seja considerado um movimento nascido no século 19, no século 18 muitas mulheres, em especial na Europa, se mobilizaram em torno do acesso à educação formal para as meninas. E, ainda no século 21, a alfabetização de mulheres não é um fato dado. A ONU se preocupa com isso.  Nos séculos seguintes, o movimento feminista estendeu essa conquista até as universidades, às quais o acesso das mulheres também era vedado.

Nem todas as meninas dos séculos passados tinham a mesma oportunidade que teve, por exemplo, Jane Austen, de se tornar uma romancista. Ou de se tornar uma pensadora como Olímpia de Gouges e Rosa de Luxemburgo, uma cientista como Marie Curie. Nem todas as meninas, ainda hoje, têm a oportunidade de publicar ou simplesmente ler um texto no jornal ou na internet. Mas, mais do que isso, juntar numa mesma frase os termos “mulher”, “escritora”, “intelectual”, “médica”, “cientista” ou “filósofa” já foi uma impossibilidade para todas as pessoas do sexo feminino.

Só isso já deveria ser um motivo para nós, mulheres, agradecermos ao feminismo.  Temos hoje a possibilidade de estudar, refletir e criticar o que acontece ao nosso redor e até mesmo de criticar o feminismo. (Infelizmente, nem todas as críticas produzidas são embasadas e bem informadas, mas nem todos que têm acesso à reflexão se apropriam dele.)

Um desafio: o reconhecimento do trabalho doméstico

O feminismo também é atacado quanto ao fato de impor que todas as mulheres trabalhem fora de casa. Trabalhar fora não é uma imposição, mas uma conquista. A inserção no mercado de trabalho não significa apenas a possibilidade de sustentar-se. O acesso ao trabalho remunerado – porque é disso que falamos quando falamos em trabalhar fora de casa, acesso ao dinheiro – é também a possibilidade de acesso a bens e serviços. O direito a adquirir um imóvel, fazer uma poupança ou um investimento para o futuro, fazer um curso profissionalizante ou um mestrado, adquirir um seguro social (previdência pública ou privada, plano de saúde etc). Tudo isso – que torna nossas vidas como indivíduos mais seguras economicamente e mais autônomas – só é possível quando se tem acesso a um recurso básico: o dinheiro.

É o fato de permitir o acesso ao dinheiro – ícone máximo de reconhecimento da posição de homens e mulheres nas sociedades ocidentais contemporâneas – que faz com que o trabalho fora de casa seja visto como uma imposição social. Não apenas para as mulheres que optam por se dedicar ao trabalho de cuidar da família e dos filhos, mas também para os homens. Conheço famílias em que o homem realiza o trabalho da casa e da família e a mulher trabalha fora. E para este homem, a opção também é motivo de constrangimento.

Seja homem ou mulher o responsável pelo trabalho de manutenção da casa e da família, esse constrangimento não é uma criação do feminismo, mas uma criação das condições sociais atuais, em que cada indivíduo é visto principalmente como parte do processo produtivo. Em nosso contexto atual, trabalhador ou trabalhadora é apenas quem ocupa uma posição de trabalho que seja remunerada.

É exatamente por isso que um dos itens da pauta feminista hoje é o reconhecimento do trabalho doméstico não remunerado e a remuneração do trabalho doméstico. Reconhecer o trabalho doméstico como trabalho é importante para permitir aos membros da família responsáveis por sua execução o acesso à previdência, à aposentadoria. Hoje, apenas quem contribui financeiramente para o sistema público tem acesso a esses seguros. Remunerar o trabalho doméstico é uma batalha ainda mais complexa, porque implica em reconhecer e estabelecer valores para uma função essencial na sociedade: a de reproduzi-la e mantê-la. Por séculos a mulher tem sido aprisionada a essa função sem obter reconhecimento. A intenção do feminismo é de que essa função seja reconhecida e se torne opcional para homens e mulheres sem que a opção se torne um peso para ninguém.

O feminismo não tem como objetivo estabelecer com as mulheres um endividamento de longo prazo. Nenhuma mulher “deve” nada ao feminismo porque o feminismo não é um banco nem uma lógica dominadora que faz concessões generosas. O feminismo é um movimento social que pretende mudar as relações de forças da sociedade e torná-la mais justa para mulheres e homens independentemente de suas posições sociais, crenças, etnias. É por isso que, mesmo sem ter nenhuma dívida, eu considero prova de inteligência e conhecimento dizer, ao menos uma vez por ano: “Eu tenho muito a agradecer ao feminismo”.

March 7, 2012
by Regina Miraaz
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Pelo dia 8 de Março – para não dizer que não falei das flores

Trabalhadoras da Caxemira em protesto contra o governo. Clique na foto para visitar uma galeria de imagens de protestos criada pelo jornal 'The Guardian' .

Mais um Dia Internacional da Mulher. E você não verá muitas imagens como a que aparece acima. Isso porque há promoções nas perfumarias. Cosméticos e maquiagem pela metade do preço. Todas as marcas de cosmético chamam. E é urgente, porque você precisa pedir logo seu produto se não quiser perder a promoção criada especialmente para este dia.  Claro, porque é hora de “celebrar a mulher da sua vida”, seja ela sua namorada, amiga, amante, esposa, filha, secretária ou você mesma. E lá vamos nós mais uma vez: celebrar com lingeries, cosméticos, geladeiras e fogões, panelas. Neste ano, uma emissora de TV inovou: sorteou um par de sapatos produzido por seu patrocinador no Twitter. Porque, segundo a campanha, “Dia da mulher? Tem que ter sapato”.

No lugar onde trabalho, sempre presenteiam as funcionárias: bolsinhas de tecido, flores artificiais, bijouterias de quinta. Sim, porque se você é uma instituição ou uma pessoa legal, mas legal de verdade, nesse dia você vai presentear as mulheres. Ah, pode ser com flores. Afinal, as floriculturas já reforçaram o estoque e, se você não for bacana, elas vão apodrecer. Sim, porque no Dia Internacional da Mulher, na Semana da Mulher, na Quinzena da Mulher, no Mês da Mulher, não importa o título e o período, é hora de mostrar o quanto você valoriza “a mulher”.

Esse é o Dia Internacional da Mulher que vemos por aí, que a mídia, o comércio, as relações de trabalho, familiares e pessoais transformaram num dia de comemoração da “feminilidade”. Então, vale reforçar aqui, abusando do “meme”, para toda essa gente: “vocês estão fazendo isso errado”. Esse é o Dia Internacional da Mulher comemorado do jeito errado, com o objetivo errado, em nome de tudo aquilo que não é representado pela data: a manutenção dos poderes e dos direitos bem longe das mulheres.

O dia 8 de março foi transformado em Dia Internacional da Mulher para relembrar um processo histórico: a mobilização política das mulheres. Nos séculos 19 e 20, foram inúmeros protestos, reivindicações, passeatas, greves, ações pelo direito ao voto, por salários mais justos e jornadas de trabalho menos debilitantes. Tudo isso mereceu bastante “carinho” da sociedade: perseguições, prisões, ostracismo, repressão, cárcere privado. (Para os detalhes, confira a entrada sobre o verbete na página oficial das Nações Unidas ou na enciclopédia mais próxima). Ou seja, nada de flores na rotina dessas mulheres que arriscaram muito, e ainda arriscam, inclusive suas próprias vidas, em nome de relações menos opressivas.

Por isso, comemorar o dia da mulher reduzindo cada uma de nós a sua “feminilidade” – que não é sequer um “fato”, mas uma ideia, bastante questionável, a respeito de como as mulheres devem ocupar seu espaço no mundo – é, em primeiro lugar, negar esse processo histórico. É também alimentar alguns preconceitos clássicos sobre as mulheres: de que sua existência no mundo é, basicamente, como um corpo sexualizado, idealizado e romantizado; que ela não é propriedade de si mesma, mas sempre a “mulher da vida de alguém”; que sua inteligência e suas opiniões são secundárias; que suas propostas de mudança da sociedade são apenas uma brincadeira sem importância.

Reproduzir e naturalizar as relações de poder é também uma das estratégias mais antigas do patriarcado: adular as mulheres por suas “qualidades únicas”, sua generosidade, sua bondade, sua beleza “natural” e, dessa forma, enfraquecê-las em sua ação questionadora e como indivíduos autônomos, que devem e vão assumir e fazer uso de seu poder de mudar as relações sociais e políticas, ainda que isso leve tempo.

Reforçar os estereótipos sobre a mulher e seus gostos, desejos e anseios – sempre ligados a beleza, maternidade e a sedução (ou o servilismo) ao sexo masculino – demonstra apenas duas coisas: desconhecimento ou intenção deliberada em esvaziar o significado de uma luta histórica. (E, só para pontuar, o desconhecimento é injustificável para quem faz parte de uma elite com acesso à informação.) É também, claro, esconder que as relações sociais ainda estão baseadas no distanciamento das mulheres de suas intenções políticas e de sua liberdade para agir na esfera pública.

Em todo o mundo, e em cada país de acordo com a real condição da mulher na sociedade, 8 de Março não é uma data para presentes e comemorações. É uma data para um passo além pelo fim das opressões e das dominações. O passo deste ano pode ser deixar de reproduzir o oportunismo e a hipocrisia com que o capitalismo e o patriarcalismo tratam a data. É uma data para plenos poderes. E não para flores.

 

 

February 26, 2012
by Regina Miraaz
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Nem toda nudez será castigada

A nudez é um território colonizado pelo machismo. As revistas, os programas, as “produções culturais” e os ambientes de nudez feminina liberada são construídos com substrato sexista como forma de preservar e reproduzir o poder masculino. Quando a nudez é masculina, o “produto cultural” é voltado para o público gay, homens para homens verem.

Às mulheres, sobra o território do corpo coberto. Uma indústria inteira mobilizada para “educar” a mulher sobre seu papel, sua “função”, seu “espaço” na sociedade. Como, quando, o que, por que usar tais roupas? O que mostrar e o que esconder do seu corpo? E sobretudo, que corpo você deve ter se quiser exibi-lo, vestida na esfera pública, e nua na esfera privada?

 

No centro, o corpo que as mulheres desejam; à esquerda, o corpo que os homens desejam; à direita, o corpo que a maioria das mulheres tem.

Uma pesquisa feita em 2008 pela revista britânica de moda Fabulous (infelizmente, a página da pesquisa não está mais no ar) revelou, involuntariamente, que o machismo está por trás da idealização da imagem corporal. As mulheres desejam aquele corpo em que a moda sempre cai bem, mas cujo ideal só é alcançado com uma boa ajuda da genética. Os homens, desejam mulheres magras, mas “nem tanto”. E a maioria da população feminina não se encaixa em nenhum dos dois ideais, exibindo medidas bem acima do ideal. Bem, exibindo não é a palavra correta, a palavra correta é escondendo.

Aparentemente, a pesquisa diz: mulheres, vocês não precisam ser tão magras quanto imaginam para serem aceitas. Mas subliminarmente, a pesquisa apenas reforça que o corpo feminino é apenas um objeto de satisfação masculina. Seja como for, a “mulher que quer ser desejada pelo homem” tem que se encaixar na medida certa. A mulher que quer ser aceita e amada tem que ser o que não é (mais magra, menor) ou o que não quer ser (mais curvilínea e rechonchuda, maior). Se você não se encaixa na medida “correta”, sua nudez será castigada com um simples rótulo: “inadequada”.

Alia: a nudez laica e libertadora é acusada de imoral pelo Egito e etiquetada como "desfrutável" pelo Ocidente.

 

Em novembro de 2011, a blogueira egípcia Alia Al Mahdi exibiu sua nudez na internet. Feminista, laica e individualista, como se define, ela fez isso em nome de sua liberdade. No Egito, a nudez é um território colonizado não apenas pelo sexismo, mas por uma visão da mulher como inferior ao homem embasada nas tradições religiosas. O apelo de Alia por liberdade foi condenado tanto pelos conservadores políticos quanto pelos liberais por ferir a fé muçulmana.

Fora do Egito, Alia recebeu apoio de várias organizações feministas e, mais ainda, de homens machistas cuja grande “contribuição” para uma sociedade mais justa foi oferecer à jovem acusada de imoralidade um espaço em suas camas. Porque o corpo feminino pode ser imoral no Egito. Mas no resto do mundo é principalmente objeto de dominação.

Imagens de um protesto do Femen contra o primeiro-ministro russo Vladimir Putin e o ministro ucraniano em Kiev, novembro de 2010.

Há pouco mais de um ano, o grupo ativista Femen ganhou espaço na mídia. As “feministas ucranianas”, como são chamadas, saem às ruas exibindo seus corpos nus. Exibem corpos perfeitos em seus protestos contra exploração econômica, a anorexia, a liberdade das mulheres, a pornografia. Elas gritam, elas são polêmicas, elas protestam contra todas as formas de violência. São inadequadas. Mas estão nuas.

O que pouca gente percebe é que, nas fotos dos protestos do Femen, as ativistas aparecem, em geral, sendo controladas, coagidas, ameaçadas ou presas por policiais. E sendo clicadas fotógrafos da grande mídia sedentos por ângulos avassaladores de corpos femininos. Mas as ativistas do Femen são inteligentes: elas despem muito mais do que seus corpos.

Cada foto que mostra um protesto do Femen revela que o corpo nu não é uma novidade – isso está em qualquer banca de jornal ou site. A novidade é que o exercício da violência desmedida e da repressão ganha espaço de destaque. Ao exibir seus corpos, as ativistas obrigam o próprio oportunismo midiático a denunciar a si mesmo e ao conservadorismo dominador a favor do qual, teoricamente, opera.

A nudez feminina das revistas masculinas e filmes pornográficos, das musas do Carnaval e dos times de futebol, nunca será castigada. É a nudez a serviço de seu senhor.

A nudez das ativistas do Femen, de Alia, ou de qualquer mulher que se declare independente do desejo masculino e fuja dos padrões de beleza será castigada pela violência ou pela ridicularização. A nudez exercida em nome da liberdade individual, dos direitos das mulheres, da libertação de imposições mutiladoras opera contra a colonização dos corpos, contra os monopólios do poder e da autoridade, contra a violência ideológica e física. E é por isso que essa nudez será castigada.